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[Duprat] Senhoras e senhores, meninos e meninas. Bem-vindos ao nosso Duprat Cast. Hoje, teremos ninguém menos que Steve Gundry. Steve Gundry é um cirurgião cardíaco que já fez mais de 10 mil cirurgias. Um dos autores mais vendidos, de acordo com o New York Times e um bom pesquisador médico. O doutor Gundry tem uma mente astuta, que conecta muitos conhecimentos e reflete sobre a saúde dos seres humanos. Estou orgulhoso de ter o doutor Gundry conosco, no Duprat Cast. Doutor Gundry, primeiramente, como estão as coisas agora aí, na Califórnia?

– [Steve] Obrigado por me receber. Como em todos os lugares do mundo, ainda estamos sob intenso confinamento na Califórnia. Nosso governador, bem no começo, foi um dos que realmente colocou todos em casa, e acho que todos acreditamos que isto realmente fez uma grande diferença. A Califórnia é um dos estados mais populosos dos Estados Unidos mas, para sua população, tem um dos menores números de infectados e mortes. Mesmo que a gente odeie isso, parece que funciona, comparado com outros lugares que não fizeram um isolamento mais rigoroso.

– [Duprat] Que bom. Estive na Califórnia, acho que uma semana antes do corona chegar no Brasil. Acho que fui um dos 100, uma das primeiras 100 pessoas a pegar corona, aqui no Brasil. Não sei se trouxe o vírus da Califórnia. Foi uma infecção séria, mas estou muito bem, agora me sinto melhor. Acho que aqui no Brasil faz mais de um mês que fizemos o confinamento, e depois poderemos voltar a trabalhar. Então, doutor Gundry, seu lindo livro “O Paradoxo dos Vegetais” está disponível no Brasil em português. Temos poucos livros e artigos sobre grãos, de como os vegetais podem não ser tão benéficas ou perigosas para humanos. Quando foi a primeira vez que pensou sobre isso e por que achou que era importante? Esta iniciativa teve a ver com sua saúde ou com a dos seus pacientes?

– [Steve] Foi um pouco dos dois, mas fiquei interessado sobre o assunto quando estava na universidade, em Yale, na graduação. Tive uma matéria especial em que pude fazer parte em biologia evolutiva humana. Minha tese era que se podia pegar um grande símio, manipular sua comida, manipular seu ambiente e provar que se obteria um ser humano. Defendi minha tese e ganhei honrarias. Em minha pesquisa, ficou bem claro que evoluímos de um animal que consumia principalmente folhas, de um animal que comia frutas, e que os grãos, por exemplo, foram uma adição bem tardia em nossa dieta, apenas a 10 mil anos atrás. Na verdade, o arroz só começou a ser cultivado 8 mil anos atrás, por isso é um dos grãos mais modernos. Há boas evidências arqueológicas que, antes do advento de grãos e feijões, que é a agricultura. Éramos, na verdade, criaturas muito altas. A maioria de nós tinha em torno de um metro e oitenta e encolhemos em torno de 30 centímetros em 2000 anos, depois que grãos e feijões foram introduzidos. E é por isso que, indo para cidades e vilas antigos, até em cemitérios antigos, se pode achar pessoas pequenas, mas não era assim bem mais antigamente. Isso me fez desconfiar que os grãos e feijões eram maléficos para as pessoas. E mais, sabemos sobre os problemas com grãos e com as lectinas dos grãos a mais de 100 anos. A ideia, a descoberta das lectinas, que são as proteínas vegetais feitas para defender a planta de serem comidas, foram descobertas a mais de 150 anos atrás. Você, cirurgião plástico, e eu, cirurgião cardíaco, sabemos que a tipagem sanguínea foi feito usando lectinas. Foi assim que descobrimos que há diferentes tipos de sangue. Apenas para continuar esta história, vimos os tipos sanguíneos e introduzimos as lectinas no sangue, e as que aglutinavam e coagulavam identificava o tipo sanguíneo. O que as lectinas estavam fazendo era fazer as células sanguíneas coagularem, e várias pesquisas durante os anos mostraram que um dos efeitos das lectinas é coagular o sangue. E, na verdade, há vários casos com seres humanos em que pessoas desenvolvem coágulos no sangue devido a ingestão de lectinas em feijões mal cozidos. Descobri que arroz e feijão são alimentos importantes no Brasil. Tenho um paciente nascido no Brasil que me contou uma história interessante. A mão dele sempre cozinhou arroz e feijão na pressão, usando as antigas panelas de pressão. Um dia, isso geralmente acontece, a panela de pressão explodiu e a mãe, assustada, parou de cozinhar o feijão na pressão. Ele tinha por volta de 12 anos quando isso aconteceu e, logo em seguida, ele começou a ficar doente. Começou a ter alergias, teve várias doenças e, eventualmente, desenvolveu uma doença autoimune. E depois que ele veio me ver devido suas doenças autoimunes, depois de ler meu livro, que ele juntou as coisas e pensou, “Tudo isso começou quando minha mãe parou de cozinhar feijão na pressão”. E também disse, “Feijão feito na pressão é comum no Brasil”. Vocês perceberam, assim como outras culturas, que cozinhar na pressão destrói as lectinas dos feijões. Uma forma de contornar este problema é cozinhar com pressão.

– [Duprat] Incrível. Incrível história. E pensando assim, há pessoas com algum tipo sanguíneo que pode comer mais lectinas do que outras?

– [Steve] É uma pergunta interessante. O doutor D’Adamo escreveu “A Dieta do Tipo Sanguíneo”. Muitas pessoas não percebem é que esse livro, esta série era, secretamente, uma dieta que evita lectinas. Ele foi bem esperto. Tenho muito respeito por ele. Ele pegou o tipo sanguíneo tipo O, que é o tipo de sangue mais comum, e definiu, acho que sem muita evidencia, que o tipo sanguíneo O eram caçadores e coletores, e que por isso deviam comer carnes e peixes, evitar grãos e coisas assim. Acho que, já que muitas pessoas são do tipo O, isso teve muita credibilidade. Ele sabia que a maioria das pessoas estão só agora começando a descobrir que são do tipo A. Todos nós expressamos diferentes moléculas de açúcar na superfície dos nossos glóbulos vermelhos, e as lectinas são proteínas que procuram por açúcar. Elas são, algumas vezes, chamadas de “proteínas grudentas”. A molécula de açúcar no tipo A é diferente da do tipo O, mas o que ele sabia, e que ninguém acreditou, é que as moléculas de açúcar não só estão nos glóbulos vermelhos do sangue, mas também estão nos revestimentos dos intestinos, da nossa boca, do nariz e das traqueias. Há vários bons estudos mostrando que o tipo A, por causa das moléculas diferentes de açúcar, são muito mais suscetíveis em pegar viroses. As viroses estão mais interessadas em se ligar às moléculas de açúcar do tipo A. Há um artigo, uma pré publicação, que sugere que o tipo A são mais suscetíveis ao coronavírus por causa deste fato. Ele foi muito criticado por sugerir isto, que uma molécula de açúcar, que reveste nossos intestinos e nariz, seria tão importante. Mas na verdade, minha pesquisa e muitas outras, mostram que ele estava certo, e sabemos agora que lectinas estão à procura de certas moléculas de açúcar e que o tipo sanguíneo prevê, pelo menos, que haverá uma reação diferente às viroses, se você for do tipo A.

– [Duprat] Incrível, incrível. Elas têm seu próprio significado. Toda vez que leio sobre um novo fator ou ponto de vista sobre algo, primeiro tento usar meus conhecimentos para ver se faz algum sentido e, depois, tento colocar em prática no meu corpo, para ver como me sinto. Quando fiz isso com os grãos foi incrível como me senti muito melhor, sabe. E depois destes dois passos, procuro a ciência para tentar descobrir o que está sendo dito sobre isso. A ciência não possui grandes artigos sobre lectinas. Há alguns, pouco extensos. Não temos muitos artigos sobre grãos e alimentação. Por que você acha que isso acontece? É interesse financeiro, é da indústria ou essa é uma pergunta difícil de se responder? Qual é o problema?

– [Steve] Olha, muita coisa é, com certeza, financeira. Geralmente esquecemos que comer grãos no café da manhã, comer cereal de manhã, é uma invenção moderna. Isso começou com os irmãos Kellogg, em 1906. Viajei ao redor do mundo e fiquei fascinado ao descobrir quando os cereais chegaram no país. Por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, os soldados americanos levaram os cerais para a Inglaterra e França. Para alguns dos meus pacientes do Oriente Médio, os cereais não faziam parte da dieta até 1960, demorou esse tempo todo. Mas analisando isso, as histórias que foram criadas sobre como os cereais são importantes, como o café da manhã é importante, os orçamentos publicitários são enormes. E mais, a maioria dos sistemas agrícolas no mundo dependem dos grãos e feijões. Mas falando sobre a dependência deles, acho fascinante que 3 bilhões de pessoas usam arroz como alimento principal. E a maioria das pessoas tira a casca do arroz, que contém lectinas, e comem a parte branca, comem arroz branco em vez do arroz integral. E todos sabem como o arroz integram faz bem, e mesmo assim, 3 bilhões de pessoas não o consomem, tiram a casca. Também temos que notar que, até uns 50 anos atrás, a maioria das culturas refinava a farinha, refinava trigo e comia pães brancos. E foi só recentemente que reintroduzimos o conceito de comer grãos integrais. Acredito que a maioria das pessoas eram mais espertas 50 anos atrás, jogando a parte ruim dos grãos.

– [Duprat] Perfeito, perfeito. Percebi que você é um bom observador. Como médico, tem olhos de águia. Analisa profundamente os pacientes, vai fundo nos conceitos. Como você constrói verdades, porque está falando sobre coisas que muitas pessoas ouvem e pensam, “Isso faz sentido”. Mas antes de ouvirem sobre isso, ninguém cruzou esse tipo de informação. Como você constrói verdades na sua vida? Um conceito?

– [Steve] Ótima pergunta. Foi quando mudei minha carreira, tentando reverter doenças cardíacas ao invés de operá-las. A minha vida toda fui um pesquisador, então quando comecei minha prática atual, 20 anos atrás, pedia aos pacientes para tirar certos alimentos da dieta, para ir a uma loja de alimentos saudáveis e comprar certos suplementos, porque eu não vendia nada. Depois, pedia um exame de sangue a cada três meses e pude ver o efeito nos marcadores de inflamação. Pude ver o efeito no colesterol, pude ver…

– [Duprat] Quais sãos os marcadores de inflamação?

– [Steve] Começamos a usar proteína C-reativa, proteínas C-reativa bem específicas. Fibrinogênio, mieloperoxidase, e depois expandimos para olhar o IL-6 e o fator alfa de necrose tumoral. Escrevi um artigo alguns anos atrás, mostrando que pessoas que tinham um nível alto de uma proteína chamada adiponectina no sangue reagiam à lectina contida nos alimentos. Quando removíamos a lectina contida nos alimentos de suas dietas, seus marcadores de inflamação caíam. Se reintroduzíamos alimentos contendo lectina, os marcadores de inflamação voltavam. É a mesma coisa, na minha prática, hoje, quase 70% dos pacientes com doenças autoimune, estiveram em todos os locais dos Estados Unidos e ao redor do mundo procurando por um tratamento que não fosse com imunossupressores. Publiquei um artigo que está em circulação a dois anos no Jornal da Associação Americana de Coração, analisando 102 pacientes com biomarcadores comprovados para doenças autoimunes, como Hashimoto, lúpus e artrite reumatoide. E em seis meses, no “Paradoxo dos Vegetais”, 95 dos 102 pacientes tiveram os biomarcadores negativados, e pararam de tomar todos seus imunossupressores. Isso é uma taxa de 94% de sucesso. Nada mal.

– [Duprat] Maravilhoso. Maravilhoso. Maravilhoso. As plantas produzem várias substâncias para se proteger. Talvez as lectinas sejam uma delas. Mas por que algumas destas substâncias podem nos prejudicar e por que outras podem ser benéficas, como os compostos fenólicos, tipo as catequinas e, talvez, a cafeína? Por que, na visão evolucionária, isso aconteceu?

– [Steve] É uma ótima pergunta. Se fosse um predador de plantas, comeria mais vegetais. Comeria várias folhas, vários tubérculos. As pessoas diriam, “Você é anti planta”. Não, não sou nada anti planta. Mas temos que entender do ponto de vista evolucionário que evoluímos de grandes símios que comiam folhas. Nós e nossos micróbios, as 100 trilhões de bactérias que vivem em nós, evoluímos, acredite ou não, para comer estes compostos. Tiramos benefícios destes compostos. Eles também educaram nosso sistema imune, que foi exposto a eles por milhões e milhões de anos. E vamos consumi-las. Não precisam ficar preocupados com isso, pessoal. Vamos ajudar, fiquem calmos. O que aconteceu recentemente, é que 10 mil anos atrás introduzimos compostos novos, que não tínhamos o microbioma intestinal para usar. Por exemplo, não há nenhum problema de um rato comer milho ou grãos. O rato evoluiu como um predador de grãos e tem um microbioma completamente diferente para usá-los. Eles têm 10 vezes a quantidade de proteases que temos para quebrar proteínas, e as lectinas são proteínas. 10 mil anos atrás, tivemos um novo conjunto de alimentos com os quais não reagimos bem. E isso fica mais interessante. Nenhum de nós veio do Novo Mundo. Nossos ancestrais vieram da Europa, África ou da Ásia, e até 500 anos atrás, não fomos, em grande maioria, expostos aos vegetais do novo mundo, como batatas e milho. A família das solanáceas. Pimentas, berinjelas. E tomates. Elas são todas da América, alimentos das Américas do Norte e do Sul. Não fomos expostos a elas por 500 anos. E começar um novo relacionamento com alimentos em 500 anos, é muito rápido em evolução. Acho que muitas vezes não percebemos como não desenvolvemos o microbioma ou educamos nosso sistema imune para lidar com esses compostos.

– [Duprat] Incrível. Isso não é muito tempo em evolução, 10 mil anos é nada. Aqui no Brasil, falo muito sobre como os grãos podem ser ruins, mas ainda sinto resistência de alguns. Basicamente, as pessoas acham que sou anti planta, mas esta não é a questão. Sentiu alguma resistência das pessoas quando escreveu “O Paradoxo Vegetal” e é possível que uma dieta baseada em vegetais seja livre de lectinas, mas ainda ser uma alimentação baseada em plantas?

– [Steve] Com certeza. Eu me considero o que chamo de vegetariano aquático. Como, em grande parte, vegetais e nos finais de semana, comemos peixe e moluscos. Há um bom motivo para fazermos isso. Vou fazer um livro mais tarde sobre isso. Com certeza você pode ser vegano e se alimentar assim. Infelizmente, veganos e vegetarianos se convenceram que eles precisam de grandes quantidades de proteína em suas dietas, como por exemplo, dos feijões. É daí que eles precisam obter suas proteínas. Aparentemente, ninguém perguntou a um gorila se eles precisam de feijões para ter proteínas suficiente em suas dietas. Os gorilas obtêm as proteínas que precisam de folhas. Ninguém observou um cavalo para ver se ele precisa de feijões em sua dieta para ter proteínas. Claro que não. O cavalo obtém tudo o que precisa da grama. O que temos que lembrar sempre é que a maioria dos grandes animais da terra comem apenas plantas, não comem feijões. Não comem grãos, comem folhas. Uma das coisas que descobri, quando consigo convencer meus pacientes veganos, e tenho vários deles, é que eles melhoram ao eliminar grãos e feijões. Se tiverem que comer feijões, cozinhar na pressão resolve. Por exemplo, semana passada, duas das minhas refeições eram feijões feitos na pressão com cogumelos temperados com muitas ervas. Por isso, as pessoas dizem, “O doutor Gundry não come feijões”. Eu como, sei como deixá-los apropriados.

– [Duprat] E quando você não come grãos, qual é a fonte de proteína? Sendo sua dieta com folhas, acha que elas têm uma boa quantidade de proteínas?

– [Steve] Sim, na verdade, todos os vegetais crucíferos são excelentes fontes de proteína. Como algumas nozes, principalmente amêndoa, pistache e macadâmia. Sempre esquecemos que as nozes também são boas fontes de proteína. Na verdade, há mais proteínas por grama no brócolis ou no espinafre do que em um filé. Por exemplo, um gorila come 7 quilos de folhas todos os dias. São muitas folhas. Eu e minha esposa comemos grandes tigelas de salada mista na janta. É preciso comer muitas folhas. Outra boa notícia sobre comer folhas é que elas saciam bastante. É muito difícil comer um monte de salada antes de se sentir cheio.

– [Duprat] Você toma alguma enzima digestiva junto ou não?

– [Steve] Não. Vejo que em muitas pessoas, antigamente, a princípio, tinham seus microbiomas destruídos pelo uso de antibióticos. Seu que aqui se prescreve antibióticos para qualquer coisa. E, como você deve saber, nos Estados Unidos, muitos dos nossos animais são alimentados com antibióticos para engordarem e serem abatidos. Sabemos que nosso microbioma tem sido devastado pelos antibióticos. Aqui nos Estados Unidos, e acredito que aconteça o mesmo no Brasil também, o Roundup, um glifosato, é colocado em tudo. E ele destrói o microbioma dos intestinos. Há artigos recentes que mostram como o Roundup causa o intestino permeável. E o mundo todo, infelizmente, foi inundado por Roundup e glifosatos.

– [Duprat] E agora precisamos de mais Roundup. Você falou do exemplo dos ratos que podem ingerir grãos, mas sei de vários animais, como cães, que estão ficando doentes e com doenças crônicas com alimentos à base de milho e grãos. Para as pessoas que não se alimentam a base de plantas. Há alguma informação sobre não se consumir animais que comem grãos ou para se priorizar animais que se alimentam com grama, ou algo do gênero?

– [Steve] É uma boa pergunta. Na verdade, fiquei interessado nisto alguns anos atrás com um dos meus animais. Tínhamos quatro cachorros e um deles era um Cavalier king charles spaniel. Ele ficou muito doente. Tinha problemas digestivos horríveis, ficou cronicamente magro, e o veterinário disse, “Ele tem insuficiência pancreática, não há nada a se fazer. Vai acabar definhando”. Era um cachorro jovem, tinha em torno de sete anos. Pensei, “Há algo errado aqui”. Coloquei-o em uma dieta de alimentos crus. Comprei carne de animais alimentados com grama e o cachorro, dentro de um mês, mudou. A diarreia parou, ganhou peso e viveu até os 13 anos, que é uma idade avançada para um Cavalier. A válvula mitral deles explode, esta é, geralmente, a causa de morte deles. E recentemente, tive outro cachorro que desenvolveu insuficiência renal severa. Um pequeno Yorkshire terrier que tinha ansiedade. O veterinário disse, “Olha, leva para casa. Leva uns medicamentos para os rins”. A cachorra ficou mais doente e pensei, “Já fiz isso com outro cachorro”. E a coloquei em uma dieta cetogênica. Ela comeu pancetta italiana crua. Que é, basicamente, bacon gordo não curado. E ela melhorou. A ansiedade sumiu, ela começou a correr conosco de novo, e morreu em uma idade avançada. Já estive em podcasts com veterinários, falando sobre cães com atrite, com irritação de pele e com dermatites. Eles não eram para ter essas coisas e, muitas vezes, quando tiramos os grãos da alimentação, eles melhoram. E há o PriViso. Muitos dos alimentos sem grãos agora tem usado ervilhas, grãos de soja, feijões. Legumes. É como em humanos, os cães não têm tolerância a legumes. E há algumas evidências recentes de que os cães desenvolvem cardiopatias dos novos alimentos sem grãos e a base de legumes. Cães não comem ervilhas, sabe. Eles não saem por aí para pegar ervilhas. Não se alimentam disso. Precisam se alimentar de animais. Se comerem carne, frango ou peixe eles ficam bem.

– [Duprat] Sim, sim. É incrível como isso funciona. Se uma pessoa puder se alimentar de frango ou carne é melhor escolher os orgânicos, os alimentados com grama e sem antibióticos. Conhecemos pessoas, alguns pacientes que são mais sensíveis do que outros com lectinas. Acho que foi no dia 25 de abril que saiu um bom artigo na Nature, a revista científica, ligando o gene apoE4 com permeabilidade do cérebro. Se essa pessoa consumir mais lectinas, talvez tenha maior risco de ter doença de Alzheimer e névoa mental. Eu tenho o apoE3 e apoE4. Tenho uma maior chance de desenvolver Alzheimer. Já ouvi você falar algo sobre alimentação para prevenir a doença de Alzheimer. Quais são as dicas que você pode nos dar sobre prevenção do Alzheimer para aqueles que possuem o gene?

– [Steve] Fiquei amigo do doutor Dale Bredesen, que escreveu “O Fim do Alzheimer”. Acredito que ele é, provavelmente, o maior pesquisador sobre Alzheimer que existe. É interessante que nos tornamos bons amigos porque fiquei muito impressionado com seu trabalho e ele estava muito impressionado com meu trabalho. Ele, na verdade, usa meu programa de alimentação em suas clínicas. Acho que estamos começando a ver, devido aos testes sofisticados que temos agora, que um dos maiores efeitos das lectinas é a ocorrência de intestino permeável. Acreditamos que a maioria das doenças que afetam o cérebro é devido ao intestino permeável, que causa permeabilidade do cérebro. As pessoas que possuem o alelo apoE4 são mais particularmente sensíveis, na opinião do doutor Bredesen, às inflamações cerebrais. Um dos pontos do meu trabalho é que, devido ao apoE4, há maior risco de doenças arteriais coronárias, foi por isso que fiquei interessado nele. De forma geral, quem tem o apoE4 não processa bem o colesterol. As gorduras saturas são piores para quem tem apoE4 do que quem tem apoE3, por exemplo. Uma das coisas que tento tirar da dieta das pessoas, ou ao menos minimizar, são os queijos. A maioria dos apoE4 adoram queijo, por exemplo. E também óleo de coco. Não tenho uma posição muito forte contra óleo MCT, um componente do óleo de coco. Mas meus pacientes, quando consomem óleo de coco, as partículas de LDL, as partículas ruins dele, as que oxidam, na verdade sobem. Quando tiramos o óleo de coco, e as gorduras saturadas caem, as partículas caem e a oxidação diminui. Uma das coisas que me deixa cada vez mais fascinado é que um dos problemas com a base é que, todos os humanos precisam de muitos componentes do óleo de peixe, chamado DHA, em nosso cérebro. Metade da gordura do nosso cérebro é DHA. Parece que há um defeito na apoliproteína E4 que não carrega o DHA para o cérebro adequadamente. A boa notícia é que há a possibilidade de contornar este defeito consumindo fosfolipídios que são prevalentes no óleo de krill. O óleo de krill não substitui o óleo de peixe ou o DHA, mas ajuda a colocar DHA no cérebro. Todos os meus pacientes consomem tanto óleo de peixe ou óleo de alga, junto com óleo de krill, ou outras fontes de fosfolipídios. E isso é uma descoberta bem recente. Acho que é graças ao trabalho do doutor Bredesen e de outros que começaram a procurar o porquê de se ser mais suscetível a desenvolver Alzheimer e quais os passos a se tomar para que isso não aconteça. Tenho um paciente de 97 anos que tem apoE34. Ele tem seu próprio negócio. Três filhas que não o deixam se aposentar por ele ser muito bom no que faz. E garanto que ele não tem Alzheimer aos 97 anos.

– [Duprat] Incrível. Quando você recomenda o DHA, usa na dose normal ou, neste caso de apoE4, a dose é maior?

– [Steve] Sim. Tento fazer todo mundo tomar em torno de 1000 miligramas de DHA por dia em comprimido. Mesmo quem consome peixe diariamente não conseguem deixar o que chamamos de índice de ômega 3 alto o suficiente, na minha opinião. As exceções são os consumidores de sardinha e anchova. Eles conseguem obter níveis muito altos.

– [Duprat] Você usa estes testes para microbioma, genéticos, ou teste de sinapses em sua prática? Porque você tem olhos de águia, como já disse, e com essas informações e uma boa conversa, fica sabendo bastante do paciente. Você usa algo para obter análises complementares?

– [Steve] Não, e vou dizer porquê. Primeiro, o microbioma muda diariamente. Muda de acordo com o que se come. Na verdade, artigos publicados e que estão no meu livro, mostram que em 3 dias fazendo a 1ª fase do meu programa se pode mudar totalmente seu microbioma. De um microbioma ruim para um bom. É o ponto principal. Por isso não uso testes. E penso outra coisa, que todos do Brasil talvez entendam. A floresta Amazônica é um ecossistema muito complexo. Tem milhares de plantas, animais e insetos. Todos estão interconectados e interligados e dependem desta grande diversidade. Estamos começando a entender que esta mesma diversidade precisa existir no microbioma que existe dentro de nós, nossa floresta Amazônica tropical. O que estamos aprendendo agora é que uma espécie de bactérias pode depender dos movimentos digestivos de outra bactéria, para que obtenha uma substância que precisa. Se não tivermos esta bactéria, a outra bactéria não sobrevive. Uma súbita mudança entre duas espécies diferentes pode ter resultados devastadores. Estou trabalhando e terminando meu novo livro chamado “The Energy Paradox”, e o que estamos descobrindo é que não só precisamos de um microbioma muito diverso, mas se não alimentarmos o microbioma com alimentos que eles precisam, nós vamos sofrer consequências que já estão aparecendo. O microbioma, e já escrevi sobre isso em meus livros, manda mensagens de texto que dizem à mitocôndria como produzir energia. Que diz ao nosso sistema imune como estão as coisas. Achávamos que faziam isso mas não tínhamos como medir. Agora há toda uma ciência sobre estes transmissores que o microbioma produz que comprova que estas mensagens de texto existem, e mostram o que elas fazem com a mitocôndria. Uma das coisas que é difícil para humanos muito inteligentes imaginar é que somos dependentes de pequenas criaturas unicelulares. Sem um cérebro que pensa. E, por exemplo, você sabe que as bactérias fazem o que se chama de “quorum sensing”. Elas sabem quando chegam à quantidade certa de bactérias para fazer o quer que seja. É como mandar mensagens de que haverá uma festa rave antes do coronavírus, e todos se juntam naquele único lugar. É muito difícil para nós aceitarmos que nosso destino está entrelaçado na nossa relação simbiótica com estes pequenos organismos unicelulares. Mas, francamente, ganhamos mais quando os alimentamos com o que elas precisam. Elas cuidam de nós.

– [Duprat] Você usa pré ou probióticos e o que acha sobre o transplante de fezes no futuro da medicina? O que acha sobre estes três tipos de tratamento ou prevenção?

– [Steve] Boa pergunta. Na verdade, quando era estudante de medicina na universidade da Georgia, em 1970, fazíamos transplante de fezes e enemas fecais para o que era chamado de Pseudomembranous endocolitis, que hoje se chama C. difficile. Não sabíamos qual era a causa na época, mas foi quando antibióticos de amplo espectro foram lançados. Achávamos que eram milagrosos porque não precisávamos identificar a bactéria para tratar. Era só aplicar. Não sabíamos que estávamos destruindo o microbioma intestinal ao mesmo tempo. Estávamos maravilhados ao ver que um enema fecal de uma pessoa saudável revertia esse processo rapidamente. Acho que uma das áreas mais empolgantes é sobre tomar cápsulas de fezes. São chamadas, às vezes, de pílulas de cocô. Há um projeto de pesquisa lindo, muito bem delineado, com crianças no espectro autista. Este belo delineamento experimental dá às crianças essas pílulas para que as bactérias cheguem ao estômago, junto com medicamento para suprimir o ácido. Tudo foi feito corretamente. E descobriram que o autismo melhorou em 50% durante o experimento, e o efeito durou por dois anos depois do transplante de fezes via oral. Muitos pesquisadores, inclusive eu, acreditam que grande parte do autismo é devido a disbiose intestinal. Há informações mais empolgantes que, diferente do que aprendemos, a placenta não é estéril. A placenta tem seu próprio microbioma. Agora sabemos que o feto não é estéril. Ele possui seu microbioma antes mesmo de nascer. Há mais e mais suspeitas que, talvez, o microbioma da placenta e do feto de crianças autistas são o problema antes mesmo da criança nascer. Se for o caso, muitos têm a esperança de podermos manipular o microbioma da mãe com probióticos e, mais importante, com prebióticos. Com alimentos que estas bactérias precisam. Recentemente, fiquei fascinado com a biótica do hospedeiro. Eles são, em essência, mensageiros que mandam mensagens sobre o que o microbioma deve fazer.

– [Duprat] Incrível. Incríveis descobertas. Acho que temos vários passos para dar na ciência e no conhecimento. É incrível de se ver, de continuar acompanhando e de crescer com isso. Acha que o estilo de vida pode mudar as bactérias? Quando comecei a pensar sobre o estilo de vida em adultos, considerando um adulto monogâmico ou uma pessoa poligâmica. Acha que isso muda o microbioma? Quais são as piores ou melhores situações para se obter mais bactérias? Talvez em relações sexuais. No seu ponto de vista, como um cientista, na sua mente de águia, já observou algo assim? Pessoas monogâmicas terem alguns tipos de doenças e pessoas poligâmicas terem outros tipos de doenças. Há alguma relação?

– [Steve] Isso é tão interessante que é pesquisado. Primeiramente, humanos tem formas de beijar. Trocam fluídos orais. Há uma teoria que gosto, sobre nosso microbioma escolher nossos amantes, ou namoradas, esposas ou namorados, baseando-se na compatibilidade ou não do microbioma. Já sabemos que, principalmente nas fêmeas, que elas podem ter microbiomas vaginais que são praticamente letal ao esperma de seus maridos. Podemos manipular seus microbiomas para ter melhores chances de ter uma gravidez. Há muita coisa que nós só sabemos de forma superficial sobre como somos, na verdade, dependentes destas pequenas criaturas unicelulares. Escrevi sobre isso no “Paradoxo da Longevidade”, mais um dos meus livros de sucesso. Nós temos um genoma muito pequeno comparado, por exemplo, ao milho, que tem mais genes que os humanos. Uma pulga d’água tem mais genes que os humanos. Mas com nosso microbioma, 99% de todas as células que nos fazem humanos não são células humanas. O material genético do nosso microbioma é 150 vezes mais material genético do que nosso próprio material. Porque o microbioma se divide e se reproduz rapidamente, muitos pensam que são como uma nuvem computacional. Não temo mais um computador gigante na minha mesa. Melhorei devido a capacidade da computação em nuvem, certo? E muitos acham que, devido ao genoma do microbioma e sua habilidade de divisão, por ele ser tão vasto, acabamos evoluindo. Muitas das nossas decisões, em termos de como interagimos com o ambiente e como vivemos é devido a nuvem do microbioma. E quanto mais leio estudos sobre longevidade, mas acho que, por exemplo, se olharmos pessoas com 105 anos de idade ao redor do mundo que estão bem. Elas têm o mesmo microbioma e a mesma diversidade no microbioma de alguém saudável com 30 anos de idade. Enquanto isso, a maioria das pessoas que envelhece possuem cada vez menos diversidade no microbioma, e um microbioma em disbiose. Quando mais descobrimos que nosso destino está ligado ao destino do nosso microbioma, melhor.

– [Duprat] Isso é incrível. Talvez, neste raciocínio, quando pessoas idosas vivem junto com jovens é muito melhor que vivam em casas apenas com outros idosos. Talvez?

– [Steve] Isso é verdade. Uma das coisas que podemos aprender com o coronavírus, particularmente no Ocidente, é que paramos de honrar e aprender com os mais velhos. Tradicionalmente, famílias grandes, com diferentes gerações, viviam na mesma casa ou próximos, na mesma comunidade. Os idosos eram valorizados por seu conhecimento, por vivências anteriores. Agora, principalmente no Ocidente, temos a tendência de mandar os idosos para asilos. E, principalmente, eles não têm mais um retorno maravilhoso dos netos ou até mesmo de seus filhos. Talvez seja por isso que perdemos tantos idosos agora para o coronavírus. Talvez haja uma mudança de pensamento como, “Quero minha vó ou meu vô em minha casa, seguros”.

– [Duprat] Sim.

– [Steve] Vamos ver.

– [Duprat] Incrível raciocínio. Não quero tomar muito mais tempo. Por isso, quero fazer mais duas perguntas curtas. A primeira é, quais as três medidas ou práticas que você sugere para melhorar nossa saúde. Que tipo de prática gosta de usar ou medidas para estresse, que pode ser um estresse bom, quando conseguimos parar de estressar, ficamos mais fortes. Quais as três práticas que você recomenda para os pacientes conseguirem uma saúde melhor.

– [Steve] Uma coisa, além da mudança na dieta, é que prescrevo aos pacientes adotar um cachorro, por dois motivos. Primeiro, é preciso levá-lo para passear duas vezes ao dia, querendo ou não. Um cachorro sempre faz você sair. Quando olhamos para as Zonas Azuis no mundo, com longevidades extremas, uma das coisas interessantes é que em todas as Zonas Azuis há comunidades em colinas. Andar para cima e para baixo, contra a gravidade é uma ótima coisa a se fazer. A outra coisa, é que os exercícios mudam o microbioma do intestino para melhor. Até mesmo meditação e ioga podem mudar o microbioma intestinal para melhor. Algum dia iremos acordar para os benefícios da meditação ou ioga, não pela forma como nos sentimos, mas pelo benefício da mudança no microbioma intestinal para um tipo mais favorável. E isso é que vai nos fazer sentir melhor, exatamente o oposto. Há vários estudos bons com humanos em que partes de tropas eram colocadas em práticas de meditação, outra parte não. Uma parte fazia ioga, outra não, de forma geral. Essas coisas são grandes redutores de estresse, mas talvez reduza o estresse pela mudança do microbioma.

– [Duprat] Perfeito. Você cobriu tudo e no final do caminho fechou com o microbioma. Incrível. E a última pergunta. É claro que, para mim, foi um prazer conversar com você. Poderia ficar aqui três, quatro horas conversando e perguntando, mas não quero tomar muito do seu tempo. Podemos ter outras conversas. Quais são os três melhores suplementos que recomendaria para as pessoas. Sei que isso é dinâmico, hoje é um, amanhã muda, mas se fosse escolher três suplementos atuais, quais seriam os melhores, para você.

– [Steve] O primeiro seria vitamina D3. Há agora quatro estudos publicados de humanos com coronavírus mostrando que, quanto menor a vitamina D3, pior será seu quadro com coronavírus. Maior a probabilidade de morrer. Se tiver vitamina D3 alta, vai lidar melhor, caso seja contagiado. Terá menos probabilidade de morrer. Segundo, as pessoas perguntam, “Moro no Brasil, temos a praia de Ipanema, tomo bastante sol”. Quando se fica bronzeado, se para de absorver vitamina D. Os brasileiros têm naturalmente a pele mais morena do que eu. É muito importante. Por exemplo, no sul da Califórnia, onde se tem bastante sol, 80% dos californianos do sul têm deficiência de vitamina D. E isso também acontece entre os mediterrâneos. A maioria das pessoas têm deficiência de vitamina D. Então, vitamina D3 em 5000 unidades internacionais é um bom começo. Isso equivale a 125 microgramas, dependendo da unidade. Óleo de peixe, gosto de frisar bastante o óleo de peixe. Nossos cérebros têm, literalmente, quase 70% de gordura, e há muitos bons estudos sobre envelhecimento, quanto mais óleo de peixe na dieta, maior o cérebro, maiores são as áreas da memória, chamado de hipocampo. Menores quantidades de óleo de peixe na dieta, mais encolhido o cérebro fica, ficando menores nossos centros de memória. Nossas mães diziam que peixe é bom para o cérebro. Não sabiam o porquê, mas estavam certas. Tomem cápsulas de óleo de peixe. Também sou um grande fã vitamina C de liberação lenta. Somos uns dos poucos animais que não produz sua própria vitamina C, e ela, infelizmente, é uma vitamina solúvel em água, saindo do nosso corpo três horas depois de ingeridas. Poderia dar uma palestra de uma hora sobre porquê devemos ter um nível de vitamina C contínuo, mas paramos por aqui.

– [Duprat] Ok. Teremos mais de 10 mil ouvintes que irão ouvir nossa conversa. Quer mandar algum recado para os ouvintes brasileiros?

– [Steve] Já fui para o Brasil várias vezes. Fiz trabalho missionário por aí. Estive em vários locais do Brasil. Espero poder voltar, mas vai demorar um pouco. Uma coisa que posso dizer a vocês, o motivo de gostar de ir para o Brasil, além das belezas naturais e da comida, é que as pessoas do Brasil sãos as mais gentis que existem. Também digo isso sobre os portugueses. Acho que é sua herança portuguesa. Há algo em vocês que é caloroso, acolhedor, muito bom.

– [Duprat] Senhoras e senhores, este é o Dr. Steve Gundry. Doutor, muito obrigado. Você é o tipo de médico gênio que vê muita coisa além, muito mais do que os olhos podem ver. Sua mente científica e curiosidade ajuda várias pessoas, inclusive a mim. Estamos esperando você aqui no Brasil mais vezes….